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É importante identificar as sementes da violência

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 24.10.09

Vivemos tempos agitados, com reacções inflamadas a frases destrutivas e rancorosas. Frases destrutivas e rancorosas são como uma arma que dispara sozinha para todos os lados. Sem critério algum, sem outra motivação que não seja a destruição ponto final.

 

Porque é que não se podiam ter ignorado as frases mortíferas do Nobel da Literatura?

Depois de ler textos e textos na blogosfera, em que uns procuraram desmontar aquelas afirmações e a sua motivação essencial, outros tentaram relativizá-las e outros ainda validá-las... concluo que a opção mais saudável é a primeira: tentar desmontar as afirmações e a sua motivação essencial.

 

Achei até perverso vir em defesa das afirmações insensatas do escritor com a liberdade de expressão. E mais perverso ainda quando são os primeiros a querer condicionar a liberdade de expressão dos outros, a mais legítima: a liberdade individual de pensar e acreditar no que se quer e deixar que outros pensem e acreditem no que quiserem, de quem quer viver em paz e deixar viver em paz.

 

Numa sociedade fragilizada como a nossa, tão vulnerável, em que se instalou a desconfiança geral e o medo do futuro, é importante identificar as sementes da violência, as que espalham o ódio, o motor dos conflitos e da destruição.

É por isso mesmo que as frases  do escritor ganham uma dimensão mortífera e destruidora e em que o alvo não são propriamente as instituições (Thomas Bernhard invectivou contra a Igreja) ou contra a própria fragilidade da condição humana (Salvador Dali também se referiu a Deus como alguém com um péssimo sentido-de-humor para ter inventado a velhice).

Aqui o alvo são todos e ninguém, os crentes sobretudo, os que fazem parte da história da humanidade, os que o antecederam pelos séculos sem fim...

 

O escritor não é inocente nestas afirmações. Sabe que o que diz não deixa a sociedade indiferente. O Nobel dá-lhe palanque, publicidade, poder. E sempre pode invocar a liberdade de expressão...

 

Liberdade de expressão? Onde? Na sua utopia de pessoas domesticadas pelo poder ditatorial de um Lider? Na sua utopia onde há quem diga às pessoas o que pensar e em que acreditar, e não pode ser em Deus que Deus somos nós, os que vos guiam os passos?

Afinal, o cego era o escritor... a querer guiar outros cegos por uma qualquer alameda num qualquer paraíso sem alma...

Afinal, o cego era  o escritor...

 

Insensatas criaturas que se servem do palanque que outras ingénuas criaturas lhes concedem para espalhar o ódio como armas que disparam para todos os lados... só com a ideia de destruição em si mesma.

Deixam atrás de si o vazio, como um vento sibilante, nada mais.

 

O Nobel-escritor não é o único. Existem outras sementes de violência, criaturas espalhadas por aí, umas facilmente identificáveis, outras mais camufladas por discursos mais dúbios e estratégias mais subtis.

Mas se procurarem a sua motivação essencial, o que é que as move?, então será mais fácil identificá-las.

O ódio, a destruição é a sua única motivação. Mesmo que vos falem em liberdade, é o controle sobre outras criaturas e sobre as suas vidas e crenças e pensamentos que pretendem dominar e domesticar.

 

Seria mais fácil igorá-las simplesmente. Mais cómodo. Mas o silêncio como resposta é, para estas criaturas da linguagem do poder, uma forma de validar as suas afirmações, tipo quem cala consente.

 

É nestas alturas que uma nostalgia me assalta, uma nostalgia por pessoas que seguiam valores e princípios da amabilidade e da tolerância, sem hesitar, que se guiavam por esses valores e princípios sem se enganar no caminho. Que sorriam simplesmente sempre que alguém os tentava demover.  (1)

Utilizo o passado imperfeito porque essas pessoas começam a ser mais raras, só por isso...  (2)

Conseguiremos nós ainda ir a tempo de preservar os valores fundamentais que inspiraram as gerações que nos antecederam? Ou resgatá-los ao tempo, uma vez que já estão em vias de extinção?

Estaremos nós a transmitir às gerações futuras as ferramentas necessárias para desmontar a linguagem do poder?, das sementes da violência?, do controle das suas vidas?, da domesticação sistemática?  (3)

 

 

 

(1) Ontem, por uma feliz coincidência, vi um magnífico documentário sobre um argumentista, Dalton Trumbo, que ficou conhecido como um dos Hollywood 10, inscrito na blacklist, e que eu coloco aqui como referência: um homem que amava e defendia a liberdade individual acima de tudo. Em homens assim, o que os move é precisamente a fraternidade entre os homens, a tolerância, o respeito pela vida de cada um e pelo seu direito a escolher o que pensar e o que fazer das suas vidas.

(2) Por isso gostei tanto deste post de João Carvalho n' O Delito de Opinião.

(3) E aqui, num post de Joaquim, no Portugal Contemporâneo, um magnífico exemplo da estratégia mais subtil e mais difícil de identificar, da linguagem do poder.

 

 

publicado às 10:06

As utopias seriam habitáveis?

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 18.10.09

Desde que revi esta semana o Lost Horizon (1937) de Frank Capra, que me tem ocorrido esta ideia: se descobríssemos o lugar que idealizámos, a nossa utopia, será que conseguiríamos ali permanecer?

Em Lost Horizon Shangri-La é a utopia do escritor que de imediato se deixa seduzir e prender pelo lugar e pelos seus habitantes, pela sua filosofia de uma existência pacífica.

O irmão mais novo rejeita toda e qualquer ideia de ali permanecer, sonhando com a fuga dali para fora o mais depressa possível. É certo que aquela utopia não é a sua. Quer voltar quanto antes para a civilização.

As outras personagens evoluem lentamente da rejeição inicial para a adaptação progressiva. Vão encontrando naquele lugar o seu próprio lugar, um objectivo.

 

Este é um dilema difícil de decifrar: serão as nossas utopias habitáveis? Desejaríamos permanecer nelas? Ou, como o irmão do escritor, faríamos tudo para desaparecer dali para fora e quanto antes?

 

Começo a inclinar-me para a segunda hipótese. O que demonstra, uma vez mais, como somos contraditórios e como a existência é paradoxal.

Vivemos no intervalo entre a realidade percepcionada e a realidade idealizada, mas sempre com essa margem de incerteza.

E é precisamente essa margem de incerteza que torna a nossa existência suportável e até agradável, mesmo que dediquemos as nossas breves existências a tentar controlar os imponderáveis.

 

Bem, como vêem ainda não me consegui despedir deste lugar, também ele um pouco utópico: acreditar que um dia o cidadão comum acordará desse vago torpor e iniciará o caminho da autonomia, defendendo o seu espaço, o seu território, a sua dignidade, o seu valor intrínseco. 

Acreditar que é possível conciliar o caminho individual, a expressão individual, e o bem comum de uma comunidade responsável que se organiza de forma racional e inteligente.

 

Tudo utópico, eu sei, e aqui está de novo o paradoxo tão humano, a meu ver: só esse intervalo entre a realidade e a utopia nos permite continuar um percurso com sentido.

 

Uma boa semana!, apesar da ausência prevista de dias de sol como estes que nos têm aquecido a alma.

As árvores agradecem, as plantinhas todas também, e só por isso e pelo facto de ter visto a barragem da minha infância com o nível de água mais baixo de que me lembro, é que a receberei, à chuva, com um sorriso...

 

 

publicado às 21:36

E não há meio de me conseguir despedir deste cantinho onde passei algumas horas a reflectir.

De qualquer modo, vou continuando a vir aqui, e arrumar a casa. Nos links, por exemplo, irei acrescentando algumas novas descobertas e retirando as vozes que se distanciam dos valores que defendo.

Podem dizer-me: Mas que democracia é essa? E "dissonantes" quer dizer o quê?

 

A democracia não é o cruzamento de linhas desencontradas, tudo a falar ao mesmo tempo, tudo no mesmo plano, tudo a discutir.

Também não é a opinião pública domesticada que já está aí, a todo o vapor, nas televisões.

E também não devia ser uma limitação e constrangimento às verdadeiras "vozes dissonantes".

 

As vozes verdadeiramente dissonantes são as que observam bem antes de falar, as que reflectem, as que analisam, as que não se deixam arrastar pela opinião oficial ou pela opinião pública facilmente manipulável.

São essas vozes que me interessam.

 

Há prioridades, nem tudo está no mesmo plano. Há diferenças, há fronteiras. Não se pode meter tudo no mesmo saco e dizer que é tudo a mesma coisa.

É por isso que a opinião pública de nada nos serve, porque é superficial, irreflectida, acrítica, e tantas vezes fundamentalista. Generaliza onde é necessário especificar, dramatiza onde é necessário ponderar.

As vozes verdadeiramente dissonantes não se deixam impressionar pela opinião oficial precisamente porque sabem que é fabricada, não é real. E não se deixam impressionar pela opinião pública porque é facilmente manipulável pela opinião oficial.

 

A sociedade actual vive, de certo modo, fora da realidade. A maioria das pessoas acredita no que é visível à vista desarmada e nas informações que recebe, sem sequer as questionar. Isto é preocupante e coloca-as numa posição muito vulnerável.

Porquê? Porque agem segundo expectativas que não se vão concretizar, precisamente porque são fabricadas pela mentira oficial. 

 

Pois bem, arrumar a casa é importante para mim. Além dos links, que vou actualizando como disse, cheguei a pensar retirar alguns posts datados. Como nos filmes, há posts que resistem ao tempo e outros que estão fora de prazo. Como aqueles três sobre o magnífico discurso de tomada de posse do Obama, por exemplo.

Estão a ver como magníficos discursos não servem para nada, a não ser para manter a mentira oficial, a manipulação da opinião pública e a evangelização popular?

Não disse Obama que os povos que precisarem dos EUA... a defesa de valores fundamentais... os direitos humanos... ?

Pois bem, o Dalai Lama está em Washington e não vai ser recebido na Casa Branca.  (1)

Mas vou deixar ficar os posts, até para servirem de contraste com a realidade cada vez mais medíocre.

Na verdade, a personagem Obama nunca me convenceu, lá mais para trás disse-o por duas ou três vezes, mas aquela oratória toda... enfim, estão a ver os perigos de uma boa oratória numa personagem sem consistência? 

 

Já falei de arrumações, agora devia falar de despedidas.

Pois bem, não vou dizer Adeus. Tal como os Sioux do filme Thunderheart, que não têm essa palavra no seu vocabulário.

 

 

(1) Bem, talvez receber o Dalai Lama na Casa Branca fosse pedir demasiado... Um império em declínio a enfrentar um império a ressurgir... Essas questões ficarão para negociações de bastidores, quando muito... 

 

 

publicado às 11:12


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